Cada privilégio meu é a supressão do direito de alguém e esse alguém é provavelmente uma pessoa negra. E eu sou diretamente responsável por isso.

22 de março de 2018

Eu demorei muito tempo para perceber o racismo institucionalizado, demorei porque pude demorar, sou branca, classe média e sempre vivi cheia de privilégios que entendia como direitos…

Me dei conta, em uma de minhas imensas conversas com a minha amiga militante, jornalista, feminista, documentarista, Maitê Freitas, que eu, mesmo tendo sido formada dentro da bibliografia da esquerda, mesmo sendo artista, engajada em movimentos de luta, ainda assim o único autor negro não ficcional que eu havia lido era o Milton Santos, eu nunca havia lido (e nem sabia da importância) de autores e autoras como Beatriz Nascimento, bell hooks, Abdias do Nascimento, Angela Davis…

Me dei conta de que todas as minhas grandes influências diretas, que me formaram o pensamento, que me indicaram bibliografias, até então, tinham sido homens brancos…

Me dei conta que 98% da minha biblioteca era composta por homens brancos… que os intelectuais de esquerda que lia, relia, estudava, sorvia eram, em sua grande maioria, homens brancos… que sempre aprendi com homens brancos sobre quase tudo o que tange a construção do meu pensamento politico…

Isso é muito, muito, muito grave.

Comecei a tentar reparar essa violência lendo Mulheres, Raça e Classe da Angela Davis, e ali eu já percebi como foi conveniente para mim não ler autoras e autores negros, bastou um livro para que eu percebesse o quanto a minha existência pode ser violenta.

Com ela eu aprendi que enquanto mulheres brancas começaram a lutar pelo direito ao aborto, mulheres negras lutavam para não serem esterilizadas… enquanto mulheres brancas lutavam para ingressar no mercado de trabalho, mulheres negras trabalhavam para nós, que enquanto mulheres brancas lutavam pelo voto, mulheres negras lutavam pelo fim da escravidão…

Então eu li Abdias do Nascimento… se eu nunca tivesse lido Abdias do Nascimento eu poderia ainda achar que “Casa grande e senzala” fosse um bom livro… se eu nunca tivesse lido Abdias eu poderia não me perguntar porque sempre vivi em casas que tinham empregadas domésticas, porque era tão natural que alguém arrumasse a minha bagunça, a minha sujeira, fizesse a minha comida…

Não falo aqui das escolhas que vieram depois de alguma formação intelectual de esquerda, da questão de classe, da exploração, essa, de alguma forma, eu fui tentando rever e atuar sobre ela. Falo do que é naturalizado, do que constitui uma ideologia racista. Eu aprendi que mulheres negras são mais fortes que eu, não aprendi porque alguém me contou, aprendi porque a empregada da minha avó arrastava um móvel para limpar atrás, minha avó nem precisava pedir para ela fazer isso, minha avó era uma mulher gentil e gentilmente pedia quando julgava necessário. Ela era autorizada a isso. Eu ainda sou.

Mulheres negras são mais fortes emocionalmente que nós, de novo, ninguém me contou isso, mas conheci uma infinidade de mulheres negras que deixam seu filhos para cuidarem de filhos de pessoas brancas… só suportam porque são mais preparadas…

Mulheres negras são sexuais, claro, porque senão são sexuais e não seduziram lascivamente homens brancos, nossa miscigenação é fruto de estupro, não, claro que meus antepassados não são estupradores, foram (convenientemente) seduzidos…

Eu posso listar infinitamente exemplos de como o racismo sustenta o privilégio de pessoas como eu e de como ele é convenientemente perpetrado, como está na base de todas as relações. Escrevo esse texto para ler e reler, tenho certeza que nele ainda há uma série de equívocos que eu ainda não sou capaz de perceber.

Uma coisa eu já aprendi, cada privilégio meu é a supressão do direito de alguém e esse alguém é provavelmente uma pessoa negra. Eu sou diretamente responsável por isso.