Sobre o Deus Capital

9 de abril de 2018

Deus: capital

Maneira de cultuá-lo: consumo

Igreja: mercado

Rebanho: consumidores

Se, como dizia István Mészáros em seu “Para Além do Capital”, o próprio capital é o deus de nossa sociedade, então, a maneira de adorá-lo e cultuá-lo está no ato de consumir.

O consumo acontece em nossa sociedade de maneira fervorosa. agimos como quem tem ao que temer e o ato nos livrasse desse mal. Amém.

Talvez, um dos opostos desse fervor que é dedicado ao consumo seja o empenho em entender qual o caminho que o produto faz para chegar até nós.

Se tivéssemos a oportunidade de conhecer esse caminho, talvez não déssemos a ele essa faceta divina.

Me parece que essa distância é também construída para que o produto siga livre até nós. Entendemos, de alguma forma, e é justo pensar assim, que, se aquele produto está no mercado é porque ele pode estar no mercado e responde a todas as exigências necessárias para estar no mercado, mercado esse balizado, entre outras coisas, pela nossa capacidade de consumo, ou seja, por quanto de dinheiro estamos dispostos a oferecer por tal produto.

É como se o próprio consumo nos livrasse da responsabilidade da trajetória do produto, porque delegamos que o próprio mercado se balize eticamente, afinal ele está sob o manto de deus, então, parece claro que esse chocolate não tem trabalho infantil, ou essa roupa não tem trabalho escravo, ou essa carne não traz nela a morte de tantas pessoas.

O consumo autoriza a não reflexão e ausência de responsabilidade sobre o próprio consumo. Mais do que isso, ele traveste consumo em engajamento ou escolha pessoal…

Mas e se nos perguntarmos sobre qual é esse caminho, o que será que iria acontecer?

Talvez nos déssemos conta de que podemos fazer melhores escolhas, ou que aquele produto não condiz com nossas convicções, então escolheríamos não consumi-lo. E assim, tendo autonomia para escolher, seria possível fazer o mercado ser mais digno, certo?

Mas não podemos esquecer, o capital é o nosso deus e o consumo é a forma de adorá-lo. O que faz o mercado (que, nesse contexto, também pode ser chamado de igreja)?

O mercado percebe que tem um novo rebanho a ser acolhido e nos transforma em um novo nicho, dessa maneira seu deus seguirá sendo louvado.

Essa lógica faz com que nossa atuação política no mundo passe pelo consumo, ou pior, seja balizada por ele. Nos percebemos engajadas e engajados em causas por usarmos uma # qualquer ou uma camiseta com um ícone transformado em estampa, nos sentimos ainda mais engajados e engajadas se, colado em nossa foto do facebook, tiver uma tarja de protesto por alguma causa legítima. Uma militância que não fere, ao contrário, endossa o consumo.

Por exemplo, queremos que nosso consumo não esteja ligado ao sofrimento animal, rapidamente uma marca percebe isso e começa a desenvolver produtos que atendam a essa demanda, mas isso nem de perto altera a dinâmica do mercado…

Essa lógica faz só com que o desavisado se sinta contribuindo para um mundo melhor consumindo o que nos vendem por um mundo melhor, um capitalismo paz e amor… Viramos aquele consumidor antenado com as novas tendências, que compra a barbie conteúdo com a Frida Kahlo de sobrancelhas feitas, come orgânico, integral, ovos de galinhas criadas em liberdade, queijos de vacas que pastam felizes e carne de bois que quase pedem para morrer, tamanha alegria de nos servir…

Mas essa lógica faz algo ainda mais cruel, faz com que o indivíduo seja responsabilizado pela existência de um produto criado a partir do esvaziamento de uma luta, de violência, trabalho escravo, etc., como quem diz, isso existe porque tem quem consuma. E aí nós é que levamos a culpa. É no mínimo injusto, não é?

Eu acho.