Aprendi com a Angela Davis que feminismo não se trata “apenas” de igualdade de direitos, se trata de liberdade.

10 de julho de 2018

Esses dias, conversando com minha mãe sobre pessoas próximas a nós que enfrentam problemas graves com drogas, chegamos à conclusão que o mundo que vivemos e, que de alguma forma, construímos, tem muito pouco espaço para além dos trilhos e, portanto, é muito difícil para quem não consegue lidar com limites tão opressores.

O que esse papo tem a ver com feminismo?

Aprendi com a Angela Davis que feminismo não se trata “apenas” de igualdade de direitos, se trata de liberdade.

Aprendi que enquanto houver uma única pessoa vivendo privada de sua liberdade, a minha liberdade está ameaçada.

Aprendi que o feminismo é uma ferramenta muito potente contra o capitalismo e o patriarcado.

O feminismo me revelou um novo paradigma social, a possibilidade da construção de uma sociedade que não seja pautada em exploração, tão incrivelmente possível… então, porque não é assim?

Temos claro que o capital é sustentado pelo tripé de exploração de raça, de gênero e de classe, não temos? Que ele existe e se mantém por criar meios eficientes de justificar esse sistema, que, muitas vezes, faz com que a gente reproduza a retórica construída para nos manter agarrados à máquina.

A ideologia capitalista é bastante articulada e têm uma retórica bastante sofisticada. Por conta dessa retórica acreditei e discursei tão apaixonadamente sobre a liberdade que nem me dei conta que tenho apenas uma forma de viver e isso não pode ser chamado de liberdade…

Nós só somos respeitadas (os) e tidas (os) como cidadãs (os) se movimentarmos dinheiro.

Se não colocamos nossos filhos e filhas em escolas respondemos judicialmente por isso.

Tratamentos fora do sistema alopático são tidos como crendices e superstições.

Se não constituímos uma família nos moldes previstos precisamos dar explicações, muitas.

Posso listar infinitamente exemplos de como somos docilizados e domesticados para dizermos sim, sim, sim…

E o que o feminismo tem a ver com isso?

O feminismo me trouxe um outro paradigma, trouxe e traz para o centro da fala aqueles que sempre tiveram (se muito) lugar de ouvinte e isso pode mudar o mundo.

Claro, não é a toa que nossas histórias sempre foram contadas por homens brancos! A fala, a partir de quem vivencia a experiência, sem passar por cientificismos, artigos acadêmicos ou qualquer coisa que embale a experiência para ser absorvida pelo capital, é profundamente transformadora, nos desloca, nos compromete e isso é muito deliciosamente libertador.

Ouvir uma mulher negra falar da janela que ela vê o mundo, fez com que meu olhar se transformasse, a partir daquela experiência contada por quem a viveu, minha tradução do mundo se altera.

Ter no centro da fala uma pessoa transexual contando de como ela percebe e atua no mundo a partir de suas experiências, faz com que eu repense o mundo que eu atuo.

Ouvir ou ler uma pessoa indígena contar como ela percebe os acontecimentos do mesmo mundo que eu vivo, sem passar pela tradução acadêmica que transforma aquilo quase num ato altruísta de quem lê, faz com que eu amplie muito o meu reportório de atuação e leitura do mundo.

Claro que isso é profundamente perigoso!

Porque ajuda a revelar as mentiras, ajudam a neutralizar os academicismos que esvaziam a experiência, coloca em evidência os preconceitos que mantém as coisas onde estão, faz com que a gente questione o que nos contam sobre a melhor forma de nos alimentarmos, tratarmos nossas doenças, cuidarmos das nossas crianças e dos nossos velhos.

O tempo todo o capital e o mercado se relacionam com a gente como se todos fôssemos homens, adultos e brancos, mas eu tenho uma coisa para contar: eu descobri que eu não sou um homem, adulto e branco. E o que mais me choca é que demorei muito para descobrir isso!

Se não somos todos homens, adultos e brancos, precisamos compor outras narrativas que nos sustentem e suportem. e , adivinhem, essa narrativa não pode ser contada por homens, adultos e brancos.

Vemos o mundo de janelas diferentes, a casa é a mesma, mas a vista é outra. É o convite a ver a vista que se cria a possibilidade de alterar a relação com a vista do outro.

Então, se relacionar com o mundo sob o ponto de vista do feminismo é, para mim, ver a vista por outras janelas e me comprometer com elas, é me aprofundar e ouvir e legitimar o que tem a dizer outras pessoas que não apenas eu ou os homens, adultos, brancos; é me comprometer com a luta pela liberdade, contra o capital e o patriarcado.

Eu, a cada dia, escolho ser feminista, e a cada dia eu refaço essa escolha.

Oba: esse esqueminha da foto é para ajudar a legitimar falas que nem são nossas e nem sobre nós. Usem sem moderação.