O pessoal é político

17 de agosto de 2018

Como nos conta a máxima da segunda onda do feminismo: “o pessoal é político”. Conhecer essa frase me fez perceber que é possível ressignificar o cotidiano e retirar dele o caráter unicamente pessoal.

Então, fiz algumas reflexões sobre mal humor doméstico, contas a pagar e satisfações a dar sobre proventos, de forma a provocar alguma ressignificação no nosso cotidiano doméstico, coletivo e político… lembrando que essas reflexões partem do meu cotidiano e que aqui me debruço na forma como percebo que os “papéis de gênero” ainda atuam em mim.

Se estivermos atentas, este cotidiano revela muito da ideologia vigente que justifica as máximas que tão bem servem ao sistema, como: “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

Essa máxima, que revela um modo de pensar e de se comportar social, não faz apenas com que mulheres sejam violentadas e muitas vezes mortas em silêncio, faz com que a gente não fale do nosso cotidiano, do que está na estrutura dele, do alicerce… faz com que a gente pessoalize as experiências, invisibilize e acredite que o que acontece na nossa casa é problema nosso e só nosso, assim não é possível perceber que a casa do vizinho talvez viva uma realidade bem próxima da nossa. Se soubéssemos disso talvez entenderíamos os tais papeis de gênero e como eles podem ser extremamente silenciadores.

Vou falar aqui da reflexão que faço a partir da minha experiência, que hoje está em viver um relacionamento hetero, na classe média paulistana. Entre pessoas brancas, ou quase, eu sou branca e ele amarelo.

Quando comecei a estudar mais profundamente o feminismo tive a ideia (completamente equivocada) de que eu estaria imune às obviedades das performatividades de gênero, ainda mais eu, esclarecida, artista, bissexual… Armadilha!

Pois bem, estou casada há aproximadamente cinco anos, e duas passagens específicas me fizeram entender de perto qual o papel social que uma mulher deve desempenhar.

A primeira tem a ver com a questão financeira. Me dei conta de que sempre que fechava um trabalho eu contava para o meu companheiro quanto eu iria ganhar e, depois de bastante tempo, percebi que ele não fazia isso, que ele não me contava de cara quanto iria ganhar, mas o fazia quando eu perguntava, percebi também que era muito difícil para mim perguntar…

Fui investigar em mim, no meu histórico de relacionamentos, se isso era recorrente, e foi quando me dei conta que nas duas relações profundas que tive antes dele, com mulheres, que… Tcharan! Esse era um assunto comum e fácil nessas relações! Então me dei conta de que mulheres prestam contas de suas contas bancárias, homens não, que isso tinha mais a ver com o modo que fomos criadas, nós – para dar satisfação, e eles – para receberem satisfação… Isso não é exclusivo das minhas relações, como pude perceber numa breve pesquisa entre casais próximos a mim.

A partir dessa primeira constatação eu continuei contando quanto ganho, ele também, mas parei de contar onde gasto… Sim, eu contava com detalhes onde ia gastar o meu dinheiro e não, ele nunca me perguntou…

A segunda passagem diz respeito ao mau humor… Parece bobo, todo mundo fica de mau humor e ao se relacionar é precisa dar conta disso também, certo? Errado.

O mau humor da mulher é ela mesma que dá conta, esse mau humor não ocupa toda a casa porque, afinal, fomos treinadas para manter a leveza e o ambiente agradável da casa.

O homem está autorizado a deixar o seu mau humor vazar, não está autorizado pela companheira, está autorizado por toda a ideologia vigente em que estamos inseridos… Demorei muito para me dar conta disso, para conseguir perceber que essa era uma questão de gênero e, mais ainda, para conseguir conversar com o meu companheiro sobre isso. E olha que, como contei lá no começo, sou artista, engajada, feminista…

Quando me dei conta eu já tinha me perguntado inúmeras vezes o que eu precisava fazer para não disparar o mau humor do meu parceiro, já tinha previsto inúmeras vezes o que poderia desagradá-lo, já tinha contornado algumas situações, já tinha me colocado como a responsável pela harmonia da casa.

Nunca ninguém me pediu que fosse assim, não me lembro nem disso ser claramente me ensinado, mas isso sempre esteve presente, está em todos os lugares, o tempo todo. Nós acolhemos eles demandam.

Depois dessa segunda constatação decidimos que do bem estar da casa cuidamos os dois, que o nosso compromisso está em manter a casa gostosa para nós três (tem uma terceira pessoa nessa relação, nossa filha de 3 anos), e ufa, que alívio.

Eu conversei sobre isso com o meu companheiro, ele também se deu conta, eu conversei com amigas, elas foram se dando conta, meu companheiro conversou com amigos, eles foram se dando conta…

Isso não é pessoal, e se for, esse pessoal é político!