Carta para o meu afeto

4 de outubro de 2018

Demorou mas, faltando 3 dias para a eleição, a tão temida disputa política chegou bem perto de mim… Nós brigamos por telefone, como ele mora longe foi possível esperar a raiva passar, trazer o afeto para perto e só então escrever essa carta.

transcrevo-a aqui sem contar quem é o personagem principal porque tenho certeza que ela poderia ser endereçada para muitas pessoas é só trocar o “meu afeto” por pai, tio, primo, cunhado…

Meu afeto,

Tristes tempos em que se é preciso explicar o óbvio.

Não vou aqui tentar te convencer a não votar no Bolsonaro, porque tenho para mim que toda tentativa de convencimento é uma forma de colonização e isso está bem longe dos meus desejos em relação a você, mas vou tentar te explicar, da maneira mais clara que eu conseguir, o porque isso me violenta tão profundamente.

Quando te perguntei se você iria votar no Bolsonaro você me respondeu, como que fazendo piada, que sim, e é justamente esse sarcasmo, esse dar de ombros, essa sensação de que o que não é de si não importa, que faz com que essa escolha nos distancie tanto.

Esse é um homem que diz que mulher feia não merece ser estuprada. Eu sou mulher, eu, minha irmã, minha filha e minha sobrinha.

Bolsonaro se opõem à lei maria da penha, uma das conquistas mais importantes do movimento que eu participo e que norteia muitas das minhas escolhas.

Eu estou com o meu corpo na luta, estou nas escolas publicas, sou buscada por mulheres que são violentadas, eu e minha irmã servimos de referência para muitas mulheres que sofrem abuso e violência doméstica.

Ora, acabamos de passar por um processo extenso onde foi apoiada por essa lei. Essa não é uma conquista hipotética ela está entre nós.

Esse homem diz que bandido bom é bandido morto, sim, para ele gente muito próxima a nós deveria estar morta.

Diz que pessoas bem educadas não se relacionam com pessoas negras, talvez eu não seja bem educada.

Diz que um filho gay é falta de surra, não sei se você se lembra mas, eu sou bissexual.

Diz que filha mulher é fruto de fraquejadas…

Diz que a ditadura matou pouco, que deveria ter matado 30.000 (se fosse hoje eu estaria na lista, não, como diria Mário Prata, porque sou importante mas, porque 30.000 é muita gente e certamente resvalaria em mim.)

Diz que as escolas usam Kit Gays, certamente se conhecesse o meu trabalho diria que eu estou incitando mulheres a gostarem de mulheres e baterem em homens.

Essas não são falácias de um homem inescrupuloso numa mesa de bar, essas são falas que norteiam um projeto político para o país, e ele chegou até aqui porque o que ele fala ecoa e hoje eu descobri que ecoa em você, e é isso que nos distancia, o que disso tudo te representa. O ódio que o norteia é facilmente aplicado a mim, à nós.

Se você tiver curiosidade leia o projeto político dele, eu li, dentre os inúmeros absurdos está que o Paulo Freire, sim o educador mais importante do Brasil, deve ser extirpado das escolas, sim, é esse o termo que ele usa.

Estar ao lado dele é estar contra mim e contra o que eu sou e faço.

Não tem a ver com as nossas escolhas pessoais ou orientações ideológicas, não seja desonesto em dizer que sempre respeitou as nossas diferenças, dentro disso a recíproca é verdadeira, essa foi a primeira vez que gritei com você desde os meus 18 anos, naquela ocasião eu entendi que infinitas coisas nos separavam, mas decidi também que nunca te julgaria moralmente, e assim o fiz.

Hoje não falamos sobre escolhas, falamos sobre fronteiras, sobre limites, esse é o meu, eu não dou conta, a sua escolha atenta contra a minha vida, a da minha filha, minha irmã e minha sobrinha, e olha que nós ainda somos cheias de privilégios, nem te conto como é com as mulheres pretas periféricas.

“Quando você apoia alguém que diz que mulheres devem ganhar menos porque engravidam, ou que diz que filho gay é falta de porrada, ou que não corre risco de ter uma nora negra porque os filhos foram bem educados, que afirma que não aceitaria ser operado por um médico cotista, que diz que o erro da ditadura foi torturar ao invés de matar, quando você concorda com alguém que apoia o assassinato de outras pessoas, independente de quem essas pessoas sejam, então a nossa divergência não é política. A nossa divergência é moral.”

Essa é uma frase que está circulando na internet, isso não é sobre direita ou esquerda, é sobre princípios. Princípios nos unem ou nos distanciam…

Você diz que me admira, que tem orgulho de mim… pois bem, o que eu sou é tudo isso aí…

Vamos vendo como ficamos.

te amo