Quando você está acostumada com privilégios, igualdade parece opressão

17 de novembro de 2018

“Não tenho medo de nada. Temos que ensinar o medo a ter medo de nós.”

Queria poder entoar essa frase da Elza Soares, queria poder, como ela, cantar aos quatro ventos esse atrevimento em enfrentar o medo.

Eu não posso, o medo me paralisa, me cala. O medo se impôs. Ele nos apresenta uma realidade terrível, senti, pela primeira vez o medo real de não poder mais ser.

O medo que eu sinto é de que eu, e pessoas que eu amo, não possam mais andar na rua livremente, que a educação seja destruída, que os abusos sejam autorizados, que os nossos trabalhos sejam cerceados, nossas lutas inviabilizadas, que as crianças não estejam seguras nas escolas, que sejam abusadas, que as mulheres não consigam mais denunciar as violências que sofrem, sinto medo de coisas que ainda não sei nomear, de sentir dores que nunca cheguei nem perto de sentir. Esses medos são reais, não são inventados, eles estão aqui, entre nós.

Tenho medo do que já acontece, só que não tão perto de mim…

Eu, sentada em todos os meus privilégios, posso permitir que o medo me paralise.

Posso escolher não me expor, posso, de alguma forma, proteger os meus, posso esperar o furacão passar (porque ele vai passar), posso não me comprometer, não me posicionar, posso dizer que é um exagero, que precisamos torcer para o melhor.

Posso, não porque tenho direito, posso porque meus privilégios retiram os direitos de quem não pode ter medo, de quem não adianta ter medo, de quem não tem escolha, de quem a cada 23 minutos chora a morte de um dos seus, de quem a 11 segundos tem seu corpo violado, de quem a cada 48h tem sua vida tirada pelos mesmos que compreendem seus corpos como objeto de consumo.

Eu não sou privilegiada porque sou especial, sou privilegiada porque isso serve ao sistema que estamos inseridas, porque é conveniente a quem detém os espaços de poder ( e temem por seus provilégios) que eles sigam onde estão, para esses é bom que as travestis continuem (com medo) nas esquinas mas não dentro das empresas, que as pessoas negras sigam dentro das empresas mas servindo café, com medo (ou colhendo, em sistema análogos os da escravidão, tão usual ainda hoje para que tenhamos um café gostosinho na nossa mesa), que as mulheres sigam (com medo) apanhando, sendo subjugadas mas que mantenham seus casamentos abusivos…

Eu posso passar pelo medo me agarrando aos meus privilégios e dizendo que, no fundo, todos têm escolha, que o caminho de cada um é de responsabilidade individual, que crescer depende de força de vontade, pensamento positivo, otimismo… que agora eu sinto medo e então não consigo lutar, que minhas forças acabaram e que fui até onde deu…

Meus privilégios permitem que o meu limite de luta seja bem curto.

Mas meus privilégios também me trouxeram um troço chamado consciência de classe e com isso uma percepção de que as coisas não são “assim mesmo”, de que minhas conquistas não são fruto apenas “da minha determinação e força de vontade” que, com um pouquinho de esforço, é fácil notar que a senhora que limpava a minha casa, até bem pouco tempo atrás, tem muito mais determinação e força de vontade que eu jamais tive…

Me trouxeram com a percepção, a responsabilidade, como diz uma grande amiga já citada por aqui, a Maitê Freitas, tem portas que só se abrem por dentro, e eu, muitas vezes, sou quem está dentro… eu sou também responsável pelo medo que quem está do lado de fora enfrenta diariamente.

Outra frase dela que fica martelando na minha cabeça é que racismo é um problema dos brancos, somos nós que precisamos resolver essa parada… da mesma forma que transfobia, homofobia, exploração, abuso, supressão de direitos, tudo isso e muito mais é da responsabilidade de quem causa, não de quem sofre.

Sei que minha escolha, de perceber o mundo e as relações de poder, traz consigo o medo, mas nao tem volta

É no comprometimento que o pensamento vira ação, a ação consciente muda o mundo. Então vamos, com medo mesmo, mas vamos.