Sobre relacionamentos e princesas da Disney

19 de dezembro de 2018

No último jogo “nomear para combater” que fizemos esse ano, chegamos à conclusão, junto com a turma de adolescentes, que meninas aprendem a projetar um relacionamento oferecido por princesas da Disney e meninos aprendem a projetar um relacionamento oferecido por sites e filmes pornográficos… se fosse só a discrepância das referências, já seria perverso…

Fomos esmiuçando como cada uma dessas referências influenciavam na nossa vida e na forma de nos relacionarmos, percebemos que:

As meninas aprendem a esperar o príncipe encantado e ele pode ser um abusador, se tiver amor, ela vai ser feliz no final.

Aprendem que devem se comportar bem, serem encantadoras, prestativas, bem humoradas, inteligentes, belas e frágeis para serem escolhidas.

Que tudo bem se, como na história da Bela e a Fera, o príncipe sequestrar o seu pai, depois trocá-lo por você, te manter em cárcere privado… se no final for descoberto o verdadeiro amor, é que valeu a pena.

Que se você se esforçar muito, lavar, limpar a casa, for humilde, tímida e deixar tudo bem arrumadinho para suas irmãs e madrasta (convenientemente suas inimigas são as mulheres próximas à você, dessa forma já vai ficando claro que não podemos nos unir, devemos competir em busca de ser escolhida pelo príncipe) você terá a sorte grande de vir uma amiga imaginária (claro, as reais te sacaneiam) e te levar para uma festa, mas como você nasceu para trabalhar, você precisa voltar logo para casa, aí você perde o seu sapato e quem o acha vira o seu herói e você se casa com ele.

Aprende também que não tem nenhum problema em ser tocada enquanto dorme, que essa é até uma prova de amor…

Que é normal e gentil trabalhar para sete homens e arrumar a bagunça que era a vida deles antes de você chegar…

Que você precisa abrir mão de quem é você para, supostamente, encontrar o amor…

Já os meninos aprendem com a pornografia que mulheres são descartáveis, que estão ali para servi-los, que o prazer deles que importa, que se pode bater, humilhar, xingar, desrespeitar, ofender… que vale tudo para gozar.

E assim, como que num conto de fadas, a menina encontra um abusador e não consegue perceber que abuso não tem a ver com amor.

O menino não consegue perceber que se relaciona com uma pessoa, não com uma boneca inflável.

Ele aprende que pode, ela aprende que merece…

E assim, como se não fosse nada, é preciso mais de 330 mulheres para derrubar um homem, que não era um príncipe mas era de deus.

Sem que a gente se dê conta nos dizem que bolsa estupro (proposta por uma mulher que teve sua infância roubada por abusadores, que foi estuprada dos 6 aos 8 anos), pode ser uma solução, talvez o nascimento de uma nova família, que deus escreve certo por linhas tortas… uma solução que autoriza o estupro para não descriminalizar o aborto. O aborto nos liberta e não nos querem livres.

Aprendemos que mulheres são assassinadas por crimes movidos por paixão, que seus algozes não são criminosos, são homens apaixonados, que nós, de alguma forma, precisamos compreender esses rompantes, afinal a fera não queria o mal da bela…

Aprendemos, como quem ouve uma história antes de dormir, qual é o nosso papel, como devemos nos comportar, que podemos ser violentadas mas não podemos reagir, que podemos ser usurpadas, xingadas, ridicularizadas mas, ainda assim, devemos sorrir, agradar e agradecer ao homem que nos escolheu.

O bom de dormir ouvindo histórias é que acordamos. E, quando acordamos, somos nós que passamos a escrever as nossas histórias, para desespero dos que nos consumiam e não nos enxergavam, se eles são de deus nós somos de NÓS MESMAS!