Não dá mais. Essas mortes, essas festas, esses discursos racistas estão na nossa conta.

16 de fevereiro de 2019

Essa semana um jovem de 19 anos (negro) foi assassinado por um segurança de um supermercado, uma menina de 11 anos (negra) foi morta pela policia, a cada 100 pessoas mortas por homicídio, 71 são negras.

Uma semana antes desse garoto ser assassinado, uma pessoa branca fez uma festa se fantasiando de sinhazinha e contratou pessoas negras para se passarem por escravas… teve gente dizendo que erradas estavam as pessoas negras que aceitaram.

Nessa festa teve cantor, o mesmo que já foi contra as cotas, que se apresentou, ele, o mesmo que escreveu “…Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres

E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos.”

Sim, todos sabem como se tratam os pretos.

E, para quem se esquece, de tempos em tempos, uma notícia emerge, um segurança mata um negro na porta de um supermercado…

Nessa festa também se apresentou uma cantora, a mesma que entoa por aí que

“Tem gente de toda cor

Tem raça de toda fé (…)

Mãe Preta de lá mandou chamar

Avisou! Avisou! Avisou! Avisou!

Que vai rolar a festa

Vai rolar!

O povo do gueto

Mandou avisar”

Ela pediu calma, diz que a tal sinhazinha tem bom coração, ufa…

Nós, pessoas brancas, não nos impressionamos com as mortes porque não nos impressionamos com a festa. Não sentimos a violência de nenhum dos dois eventos. Fazemos malabarismos cerebrais para justificar os algozes, e somos muito bons nisso.

Não é de hoje que estamos habituados a essa prática, já falei isso por aqui, ver com novos olhos nos obriga a admitir que, historicamente, o homem que estupra é o branco, a mulher que usufrui é a branca.

Para poder nos indignar é preciso antes que a gente denuncie e assuma que nos reconhecemos nos algozes e o transformamos em algo possível de tolerar, assim chamamos de excesso e legítima defesa o que é assassinato.

Chamamos de excentricidade o que é desrespeito, humilhação e soberba.

Não dá mais. Essas mortes, essas festas, esses discursos racistas estão na nossa conta. Escrevo isso enquanto um sem número de pessoas negras são assassinadas e privadas dos seus direitos. Parabéns aos envolvidos.

Que a minha geração tenha força para nomear, Caetano Veloso e Ivete Sangalo entre tantos, são RACISTAS, e nós fingimos que não são. Assim como fingimos que essas mortes não são da nossa conta, porque somos “boa gente”. Não, não somos.